quarta-feira, 29 de março de 2017

Deixar de Ser Semente



Ao sentar-me frente ao fogo com o velho xamã, sinto que nele habita a sabedoria de todos os ancestrais  desde o princípio dos tempos. Seus olhos profundos dignos de seu nome, Luz da Manhã, que guia o restante do dia e rompe com as barreiras soturnas da noite, apesar de ainda trazer em si seu frescor. Em seu olhar sinto-me pequena, como se fosse uma criança novamente, repleta de potencial, mas ingênua frente à toda sabedoria que ele possui, como se eu fosse uma semente frente à uma robusta árvore de muitas primaveras.



Luz da Manhã inicia um lindo cântico de seu povo, tocado em sua flauta, e seu movimento parecia ritmado com o fogo que brilhava à nossa frente, apesar do velho estar com seus olhos fechados. Sua alma dançava e eu, ainda me sentindo pequena, apesar de meu amor pela grandeza do maravilhoso ancestral que estava à minha frente, admirava a luz do fogo e a belíssima canção, que acalmava meu coração. Luz da manhã olhou-me e viu que eu ainda me sentia muito pequena frente à sua sabedoria, e falou



– Minha filha, está na hora de você deixar de ser semente.



E eu naquele momento nem pude pensar como ele soube que eu estava me sentindo assim. Teria ele o poder de acessar as mentes? Ou seria a embriaguez mística da música e da dança ao fogo quem expandiu sua consciência. Bem, talvez um simples acaso, pois eu estava um tanto encolhida com as mãos segurando as pernas. Somente refleti, com a precisão das palavras naquela voz que soava como a de um trovão, ”Eu preciso mesmo deixar de ser semente. Deixar de me proteger do mundo”. Lágrimas vieram-me aos olhos e o velho xamã, que conhecia o coração de todos os seres, e nisso residia seu poder, falou novamente:



-Somente deixando de ser semente, você poderá tornar-se uma forte e bela árvore. Capaz de dar frutos dos melhores para todos que por você passarem. A todos seus frutos saciarão, pois das raízes profundas da terra virá sua vida, e ao alto suas folhas chegarão.



Eu meu pranto, eu sentia o peso da sabedoria de Sol da Manhã. Ele era realmente árvore, e eu sabia que a hora de deixar de ser semente chegara para mim. Mas o medo ainda me tomava e mais ele disse:



-Deixe de ser semente, e não preocupa-te com a aspereza da terra. Ela lhe cobrirá e os ancestrais, juntamente com o Grande Espírito, serão a água que lhe rega. Não há como uma boa semente frutificar se a água, e nem como sem ela uma árvore se manter. E quando eu estiver junto à eles, eu também lhe regarei, minha filha. Eternamente.